A receita bilionária da CSN

3 de outubro de 2016

Márcio Kroehn

Em janeiro do ano passado, o empresário Benjamin Steinbruch se reuniu com a diretoria executiva da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) para traçar um plano de ação para salvar a empresa. Seus dois principais mercados de atuação, a siderurgia e a mineração, haviam sido atingidos em cheio pela conjuntura econômica. A demanda por aço dos principais consumidores internos, como o setor automotivo, a construção civil e os fabricantes de linha branca, despencou e, em poucos meses, os negócios caíram 40%. Com o minério de ferro, a superoferta no mercado externo derrubou o preço da commodity de US$ 140 para menos de US$ 38.

A crise era preocupante porque a CSN tinha um agravante que suas principais concorrentes, como Gerdau e Vale, não tinham: um enorme endividamento, que a geração de caixa não estava sendo capaz de manter estável. Naquele período, a dívida líquida de R$ 20 bilhões era 4,8 vezes o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). No último trimestre, bateu em R$ 25,9 bilhões, 8,3 vezes o Ebitda. Na conversa com seus diretores, Steinbruch foi direto ao ponto. “Nosso cenário é de uma profunda reestruturação interna, com alongamento de dívidas, redução dos custos de produção, renegociação de contratos e venda de ativos. Ao trabalho.”

Na estratégia pensada pelo empresário, a revisão dos processos operacionais e financeiros deveria ocorrer paralelamente à venda de ativos. O mercado tinha pressa em ver a dívida cair. Mas, com a crise econômica, o valor dos negócios foi reduzido e não valia a pena se desfazer deles por muito menos do que valiam. Os analistas do mercado financeiro começaram a cobrar uma atitude de Steinbruch nas conferências de resultados. Ele, porém, destacava os avanços internos e afirmava, vagamente, que as negociações com interessados estavam em curso.

A verdade, porém, é que até junho deste ano, o empresário ouviu muitas propostas e recusou todas. “Estamos iniciando nosso processo de desmobilização agora, que é o que o mercado nos cobra”, disse ele em agosto, na apresentação do balanço do 2º trimestre, quando a CSN reportou receita líquida de R$ 4,3 bilhões e prejuízo de R$ 43 milhões. “Temos bons ativos e estamos trabalhando em diversas frentes, incluindo a desmobilização de ativos core (principais.” A paciência de Steinbruch durou 20 meses e nas próximas semanas ele deverá comemorar sua bem-sucedida cartada.

Dono de 87,5% do capital da Congonhas Minérios, a CSN vai vender uma parcela para a chinesa CBSteel. As partes deram início à negociação há quase três meses e neste momento tentam chegar à porcentagem que ficará com os investidores da China. A tendência é que o empresário se desfaça de 20% a 25% da companhia, por um valor de até US$ 7 bilhões. Está sob análise, também, se o consórcio asiático, do qual a CBSteel faz parte, terá sua participação de 12,5% diluída ou se haverá um acerto para a manutenção. Assim que os detalhes forem acertados, o empresário não só conseguirá se manter no controle da Congonhas como poderá reduzir drasticamente o endividamento da CSN.

Segundo DINHEIRO apurou, a companhia quer enxugar sua dívida líquida para até quatro vezes a geração de caixa. Para isso, terá de utilizar, aproximadamente, R$ 13 bilhões para fazer esse ajuste. “O Benjamin não se desespera em momentos de crise, ele estuda a melhor maneira de não perder”, afirma uma pessoa próxima ao empresário, que pediu anonimato. “Toda essa operação mostra que o principal acerto do Benjamin foi a criação da Congonhas Mineração no ano passado.” União das duas mineradoras da CSN, a Casa de Pedra e a Namisa, a Congonhas Mineração é a empresa que Steinbruch evitava, a todo custo, criar.

Desde 2008, quando um consórcio asiático, formado por Itochu, JFE, Posco, Kobe, Nisshin e CBSteel, adquiriu 40% do capital da Namisa, por R$ 3,2 bilhões, o empresário teve de lidar com o descontentamento de seus sócios. Foram seis anos de brigas. Boa parte da insatisfação, é verdade, aconteceu por acordos não cumpridos de expansão das unidades e aumento de produtividade. A paz foi selada quando a CSN ofereceu juntar as companhias de mineração para a formação de uma gigante. A mina Casa de Pedra, considerada uma das principais e mais valiosas fontes de minério de ferro do Brasil, produz 10 vezes mais que a Namisa.

A nova empresa foi criada no final de novembro do ano passado, com participação minoritária dos asiáticos e valor de mercado de US$ 16 bilhões. Menos de 12 meses depois, a Congonhas Mineração passou a valer o dobro. O sucesso dessa operação está diretamente ligado ao executivo Paulo Caffarelli, contratado em março do ano passado por Steinbruch para ser o principal diretor-executivo da CSN e seu braço direito. Naquele momento, Caffarelli acumulava mais de 30 anos de experiência no setor financeiro, primeiro no Banco do Brasil (para onde retornou, em maio deste ano, como presidente) e depois no Ministério da Fazenda.

Em pouco tempo, conquistou a admiração do empresário e ganhou um status que só a presidente do BNDES, Maria Silvia Bastos Marques, que trabalhou na CSN entre o final dos anos 1990 e início de 2000, alcançou: dividir com Steinbruch, considerado um centralizador, as principais decisões. A formação da Congonhas Mineração mostrou a habilidade de Caffarelli como negociador, não só por convencer Steinbruch a destravar o negócio da união, como resolver uma extensa, conflituosa e problemática negociação com o consórcio asiático. Com experiência no setor bancário, Caffarelli também mergulhou no alongamento das dívidas da companhia, na eficiência operacional, no aumento da liquidez e numa rigorosa gestão de caixa da CSN.

Ele conseguiu, por exemplo, prorrogar o pagamento de uma dívida de curto prazo de R$ 5 bilhões com o BB e a Caixa, de um total de R$ 7,4 bilhões, para começar a pagá-la a partir de 2018. Além disso, estimulou a renegociação de contratos com fornecedores, que foram estendidos de 30 para 60 dias. Com o aval de Steinbruch, pediu um corte de custos na produção. Cerca de seis meses depois, Enéas Diniz e Daniel dos Santos Júnior, diretores-executivos da siderúrgica e da mineração, respectivamente, reduziram as despesas em cerca de 30%, seguindo a única exigência pelo empresário: evitar, ao máximo, cortar pessoas.

De um total de 22 mil trabalhadores, a companhia teve de enxugar 900. “Os funcionários vivem os momentos bons e não podem ser os primeiros descartados em situações ruins”, costuma dizer Steinbruch aos seus executivos. Formada pela união dos negócios de mineração, siderurgia, logística, cimentos e energia, a CSN continua interessada em se desfazer de seus ativos, principalmente os menos estratégicos. No final de agosto, a empresa acertou a venda da fabricante de latas de alumínio Metalic, que detém 4% do mercado nacional, para a polonesa Can-Pack, por US$ 98 milhões.

O próximo negócio a mudar de mãos é o terminal de contêineres Tecon, em Sepetiba, no Rio de Janeiro. No início de setembro, Steinbruch ouviu de um dos maiores operadores portuários do Brasil a oferta de R$ 750 milhões pelo porto. O empresário agradeceu e afirmou que pretende chegar ao dobro do valor daquela proposta. Para o mercado, o Tecon vale aproximadamente R$ 1,2 bilhão. Em meio às vendas para resolver o seu endividamento, a CSN tem encontrado espaço para explorar novos mercados e realizar novos investimentos. A siderurgia, que atendia quase que somente o mercado interno até 2013, encontrou espaço nos Estados Unidos e na Europa.

O resultado é um aumento das receitas internacionais no segmento de 2% para mais de 40%, além de uma redução dos custos com a diminuição dos estoques. Outro acerto está acontecendo na unidade de cimentos, criada em 2009, mas que passou a ter uma importância maior para a sinergia dos negócios nos últimos três anos. Antes de entrar nesse mercado, a empresa descartava ou vendia a terceiros a principal matéria-prima da indústria cimenteira, a escória, um subproduto da produção do alto forno. Primeiro, a usina de Volta Redonda foi preparada para testar a viabilidade e a aceitação.

O sucesso levou a empresa a investir, nos últimos dois anos, R$ 1,8 bilhão na usina de Arcos, em Minas Gerais, para aumentar a produção. Em outubro, a nova fábrica estará completamente pronta e a capacidade saltará de 2,4 milhões de toneladas ao ano para 3,7 milhões de toneladas. Atualmente, o cimento contribui com 2,4% das receitas do grupo, mas deve chegar a 5% nos próximos anos, principalmente com o reaquecimento da indústria de construção civil. Apesar do conturbado cenário externo, que empurrou a CSN para a beira do abismo, não se pode minimizar os sucessivos problemas de gestão da companhia.

Muito dessa crise está ligada ao perfil do seus controlador. Steinbruch é um financista e leva ao limite a alavancagem em seus negócios. Foi dessa maneira que, em 1993, financiou a aquisição da siderúrgica no processo de privatização conduzido pelo governo Itamar Franco. Para ficar com a CSN, uma das mais emblemáticas empresas do País, criada na década de 1940 pelo governo federal para ser a principal companhia do setor, elevou consideravelmente o endividamento da Vicunha Têxtil, empresa criada por seu pai, Mendel, nos anos 1960.

A compra da decadente CSN, que estava próxima do sucateamento no final dos anos 1980, apresentou Steinbruch como um arrojado e controverso homem dos negócios. Nos anos seguintes, ele arrematou e vendeu a empresa de energia Light e encarou uma disputa ferrenha com o empresário Antonio Ermírio de Moraes pelo controle da mineradora Vale do Rio Doce, negócio do qual se desfez em 2002. Em pouco tempo, ele foi do anonimato ao controlador de empresas-símbolo do Brasil. Agora, Steinbruch tenta se reequilibrar e mostrar que consegue salvar os seus negócios. 

Fonte: Isto É
Seção: Siderurgia
Publicação: 03/10/2016

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