Baixo consumo de aço deve persistir e acentuar crise na rede de distribuição

24 de julho de 2015

Juliana Estigarríbia

Os mercados demandantes de aço devem permanecer em baixa pelo menos no curto e médio prazo, adiando ainda mais a retomada da atividade. Na rede de distribuição, empresas têm demitido e algumas já entraram com pedido de recuperação judicial.

“Não há drivers que apontem para uma recuperação substancial das vendas de aço neste ou no próximo ano”, afirma o analista de siderurgia da Tendências Consultoria, Felipe Beraldi.

Segundo ele, em 2016 o setor deve apresentar alguma retomada, mas ainda insuficiente para reverter as quedas apresentadas nos últimos dois anos. “A retração do consumo de aço vem sendo motivada pela contração nos segmentos automotivo, bens de capital, linha branca e construção civil”, acrescenta.

Nesta terça-feira (21), o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Produtos Siderúrgicos (Sindisider) informou um recuo de 17% nos postos de trabalho do setor nos últimos 30 meses, para cerca de 107 mil. No período, foram demitidos 21,3 mil trabalhadores.

“Algumas empresas estão trabalhando com semana curta e outras já entraram com pedido de recuperação judicial. A situação é pior entre os pequenos”, afirma o presidente do Sindisider, Carlos Loureiro.

Ainda de acordo com projeção da entidade, as vendas de aços planos pelos distribuidores devem apresentar uma queda de 12% no ano, com viés de baixa. “Certamente vamos ter que rever os números, pois o desempenho está muito aquém do esperado”, avalia o dirigente.

A rede de distribuição amargou o pior primeiro semestre desde a crise global de 2009 e, segundo Loureiro, tudo indica que a segunda metade do ano deve ser igualmente ruim. “A indústria está muito desanimada e quando não há produção, nossa demanda cai”, acrescenta o dirigente.

Loureiro conta que os estoques da rede estão muito acima do ideal, em 4,1 meses (quando normalmente giram em torno de 2,5 meses).

“Os estoques tanto da rede quanto dos clientes estão muito altos, sinalizando que a crise ainda não acabou”, avalia o presidente do Sindisider.

Ele usa como exemplo o setor automobilístico, que acumula 47 dias de estoques de veículos nos pátios. “Para voltar a consumir aço, a cadeia automotiva teria que reduzir esse volume para pelo menos 30 dias”, explica Loureiro.

Preços

Os preços do carvão metalúrgico continuam em um movimento de queda e a cotação do minério de ferro se mantém estável, o que segundo Beraldi impossibilita novos reajustes de aço no Brasil. Segundo ele, a diferença entre o preço do produto brasileiro e o internacional (excluindo China) ainda pode recuar no curto prazo.

Mas o maior temor do setor ainda vem da China. No primeiro semestre, o país asiático foi responsável por 61,3% das importações totais de aços planos no País. E é exatamente das usinas chinesas que sai o aço mais barato do mundo. A tonelada da bobina a quente, que no mesmo período do ano passado estava cotado a cerca de US$ 450, hoje custa US$ 320 na China. “E ainda há espaço para cair pelo menos US$ 10”, afirma Loureiro.

E em meio ao cenário de retração da demanda e aumento das importações, algumas usinas brasileiras têm negociado descontos pontuais, que vão de 5% a 7% em lotes maiores.

Na semana passada, o Instituto Aço Brasil defendeu medidas de salvaguarda para impedir a entrada maciça de aço importado da China. A entidade observa que as siderúrgicas daquele país são altamente subsidiadas, o que gera uma competição desleal.

Loureiro pondera que um aumento do imposto de importação poderia frear a entrada de aço chinês no País. “Cerca de 30% das ações globais de antidumping no setor de aço são contra a China”, pontua.

Além disso, a valorização do dólar também traria alento à atividade na medida em que estimula a exportação e inibe as importações. Na visão de Loureiro, a taxa de câmbio ideal seria de R$ 3,50.

Produção

A Tendências estima que a produção de aço bruto deve registrar um recuo de 1,5% neste ano, sobre uma base já enfraquecida. O desempenho será puxado por aços longos, que em 2015 devem ter uma queda de 10%.

Já a produção de aços planos deve apresentar declínio de 5,5% neste ano, impactada principalmente pela cadeia automotiva.

Conforme dados da Associação Mundial do Aço (Worldsteel Association, na sigla em inglês) a utilização da capacidade instalada global no mundo está em 72%, enquanto no Brasil este índice não passa de 68%. “Estamos atrás da média mundial, que já está ruim”, lembra Loureiro.

Fonte: DCI
Seção: Metalurgia & Distribuição
Publicação: 24/07/2015

Compartilhe nas redes sociais