Especial: Mercado chinês de aço sofre variações

10 de novembro de 2016

As exportações e as importações da China caíram mais do que o esperado no mês de outubro, com a demanda doméstica e global fraca aumentaram as dúvidas sobre se uma possível recuperação da atividade econômica na maior nação comercial do mundo poderia ser sustentada.

As exportações caíram 7,3 por cento em outubro na comparação com o ano anterior, enquanto as importações encolheram 1,4 por cento, mostraram dados oficiais divulgados nesta semana, levantando temores de que a recuperação observada nos últimos meses pode vacilar.

Isso deixou o país com um superávit comercial de 49,06 bilhões de dólares no mês, segundo a Administração Geral da Alfândega, ante expectativa de 51,7 bilhões de dólares e 41,99 bilhões em setembro.

Embora dados recentes tenham sugerido que a segunda maior economia do mundo estava se estabilizando, analistas alertam que um boom imobiliário, que gerou uma parcela significativa do crescimento, pode estar atingindo o ponto máximo, reduzindo a demanda por materiais de construção.

De fato, as importações chinesas de minério de ferro, petróleo, carvão e cobre caíram em outubro, após sua demanda forte ter impulsionado os preços globais de muitas commodities neste ano.

Analistas consultados esperavam que as exportações em outubro recuassem 6 por cento sobre o ano anterior, ante a contração de 10 por cento em setembro. A expectativa para as importações era de queda de 1 por cento, após recuo de 1,9 por cento em setembro.

“Nossa conclusão é de que a demanda externa permanece fraca, mas não piorou significativamente. Embora as exportações e as importações tenham ficado aquém das expectativas, elas melhoraram em relação ao mesmo período do ano passado”, disseram economistas do ANZ em nota, destacando que a taxa de declínio em outubro se moderou ante setembro.

Mesmo assim, as exportações nos primeiros 10 meses do ano caíram 7,7 por cento em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto as importações perderam 7,5 por cento.

Matérias-primas

De acordo com os dados, a China importou 80,8 milhões de toneladas de minério de ferro em outubro, o menor volume desde fevereiro, com queda de 13% em relação ao mês anterior. Mas, em comparação com um ano atrás, os embarques da matéria-prima siderúrgica ainda aumentaram 7%.

Já as compras de cobre sofreram queda de 31%, a 290 mil toneladas. Entre janeiro e outubro, as importações de petróleo bruto da China cresceram 14% ante o mesmo período de 2015, a 312,28 milhões de toneladas, enquanto as de minério de ferro avançaram 8,9%, a 843,31 milhões de toneladas, e as de cobre tiveram acréscimo de 7%, a 4,08 milhões de toneladas. Os dados também mostraram que a China exportou 290 mil toneladas de petróleo bruto em outubro. No mesmo mês do ano passado, o país asiático não exportou petróleo.

Esta queda na importação das matérias-primas está ligada à disparada aos seus custos, e como meio de contê-los, algumas siderúrgicas chinesas têm cortado a produção e até começado trabalhos de manutenção mais cedo que o habitual, em meio a fechamentos de minas ordenados pelo governo que prejudicam a oferta de ingredientes essenciais, como coque e carvão de coque.

Os preços de coque e carvão de coque, que tipicamente representam 20% dos custos da produção de aço, subiram mais de duas vezes esse ano, após iniciativas do governo chinês para reduzir o excesso de capacidade e a poluição, o que tem reduzido os lucros das usinas.

Como resultado, altos fornos do maior país produtor e consumidor de aço estão operando na menor capacidade em quatro meses, mostraram dados da consultoria Custeel.com, em contraste com o início do ano em que uma demanda robusta e preços elevados levaram as siderúrgicas a operar quase com capacidade total.

Os fornos de siderúrgicas em toda a China estão operando com capacidade de 86%, menor índice desde junho, segundo os dados.

Os contratos futuros do aço subiram mais de 2 % na bolsa de Xangai na quinta-feira, atingindo o maior nível desde abril, sustentados por uma firme demanda na China, que eleva ainda mais os preços do minério de ferro no mercado à vista. Os estoques de produtos de aço em siderúrgicas integrantes da Associação de Ferro e Aço da China caíram 1,9 por cento para 13,61 milhões de toneladas em 20 de outubro, na comparação com 10 de outubro, disse o Morgan Stanley.

Ao mesmo tempo, a média diária de produção de aço bruto entre as usinas associadas ficou em 1,72 milhão de toneladas no período entre 11 e 20 de outubro, queda de 1,3 por cento ante os 10 dias anteriores. ”A queda nos níveis de estoques sugerem que a demanda se mantém intacta. Nós esperamos que as siderúrgicas aumentem ainda mais os seus preços em resposta ao aperto de margens”, disseram analistas do Morgan Stanley, em nota.

Neste cenário, as importações de produtos de aço caíram 4,4 por cento, para 1,08 milhão de toneladas, enquanto as exportações caíram 12,5 por cento, para 7,70 milhões de toneladas.

Novo status comercial

O reconhecimento da China como economia de mercado a partir de 11 de dezembro pode significar um prejuízo de R$ 410 bilhões à indústria nacional no período de 2017 a 2020, somadas as perdas em produção e na receita bruta com a venda de produtos, estima um estudo realizado pela BarralMJorge (BMJ) Consultores Associados.

A mudança de status na Organização Mundial do Comércio (OMC) dificultará a adoção de medidas de defesa comercial contra o país asiático, reduzindo a proteção à indústria brasileira. A consultoria calcula que 856 mil postos de trabalho seriam extintos em quatro anos.

O estudo foi elaborado a pedido do Instituto Aço Brasil, já que o setor siderúrgico é um dos mais afetados pela concorrência chinesa. Os dados serão levados pela entidade ao governo federal. Um dos autores do levantamento, o ex-secretário de comércio exterior Welber Barral explica que, se confirmada a obrigação de reconhecer a China como economia de mercado, ficará proibido o uso de preços de terceiros nas investigações de dumping (venda de um produto a preços muito inferiores aos do mercado de origem) e de subsídios contra exportadores chineses.

O estudo lista como consequências para a indústria brasileira o forte aumento das importações da China, perda de produção, redução da receita com vendas, cortes de empregos, salários e fechamento de indústrias.

O cenário sem proteção comercial se traduz, segundo a BMJ, em perdas, nos próximos quatro anos, de R$ 170 bilhões com queda de produção e outros R$ 240 bilhões com a redução na receita de vendas de produtos industriais. A projeção é que, eliminado o antidumping, as importações da China somem US$ 133,8 bilhões de 2017 a 2020, contra US$ 3,3 bilhões se as medidas de proteção fossem mantidas.

 

Fonte: Infomet
Seção: Especial
Publicação: 10/11/2016

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