Estoque alto e queda nos embarques explicam menor produção

24 de julho de 2012

A queda brusca da produção nacional de aço nos últimos meses não reflete a situação real da demanda interna pelo produto nem somente a competição com produtos importados. O resultado pode ser interpretado, primordialmente, como fruto de uma queima de estoques, após o mau desempenho das exportações nos primeiros meses do ano. A redução da produção, na nossa visão, visa enxugar os estoques de semiacabados – de sorte a facilitar uma recomposição de preços no segundo semestre, melhorando as margens das siderúrgicas nacionais, que vinham muito apertadas nos últimos meses.

Após um início de ano positivo ( 2,8% da produção nacional de aço bruto no primeiro trimestre ante igual período de 2011), a indústria siderúrgica nacional reduziu significativamente o volume de aço produzido. No segundo trimestre, a produção caiu 7,2% na mesma base de comparação, com maiores reduções em maio (-11,7%) e junho (-8,5%), segundo dados do Instituto Aço Brasil (IABr). No acumulado do primeiro semestre de 2012, foram produzidas 17,4 milhões de toneladas, queda de 2,4% frente a igual período do ano anterior.

A demanda interna por aço (vendas internas das empresas e importações), por sua vez, aumentou 2,8% no segundo trimestre na comparação interanual. No acumulado do primeiro semestre, o avanço chega a 3,0%. A maior parte deste crescimento (62% do consumo adicional) foi suprido por produtos importados (cujas compras cresceram 13,7% no período). O restante (38%) foi suprido com o produto nacional (cujas vendas internas cresceram apenas 1,4%), ainda segundo o IABr.

De qualquer maneira, o recuo na produção não pode ser creditado à falta de demanda interna nem exclusivamente à competição com produtos importados no mercado doméstico, uma vez que as variações das vendas domésticas são modestas, mas ainda positivas. Além disso, a crescente presença dos importados no mercado interno não é uma questão nova e nem teve desdobramentos recentes que justifiquem o resultado da indústria siderúrgica nacional no primeiro semestre.

Na verdade, o principal problema do setor na primeira metade de 2012 está relacionado com as exportações. Com a demanda externa em situação mais delicada do que no mercado doméstico e a oferta abundante de aço no mundo (principalmente oriundo de siderúrgicas chinesas), as exportações brasileiras sofreram no primeiro semestre de 2012.

Nos laminados planos, a queda do volume exportado foi de 35,6% nos primeiros seis meses frente a igual período de 2011. Já nos produtos longos, a retração foi de 31,5%. O único segmento que apresentou alta dos volumes embarcados no período foi o de semiacabados ( 8,3%).

Com a retração das exportações do aço no primeiro semestre do ano, as empresas viram aumentar seus estoques de produtos semiacabados, que agora estão sendo consumidos para produção de laminados destinada ao mercado interno, reduzindo a necessidade de produção de aço primário.

Nossa expectativa, no entanto, é de recuperação gradual do volume produzido ao longo do segundo semestre de 2012, como reflexo de estoques mais equilibrados e preços mais elevados. Para o acumulado do ano, nossas projeções apontam para alta de 3,2% da produção nacional de aço bruto.

Com relação aos preços internos do aço, as recentes quedas ocorridas nos mercado internacional e as perspectivas mais modestas para o crescimento do consumo da commodity no Brasil têm levantado dúvidas sobre a viabilidade dos aumentos de preços divulgados pelas as principais empresas do setor. Na opinião da Tendências, um reajuste de preços no terceiro trimestre ao redor de 7% é factível e influenciado pela desvalorização cambial ocorrida ao longo do primeiro semestre do ano, sem prejuízo adicional significativo para a competitividade do produto nacional.

Entre dezembro de 2011 e junho de 2012, os preços do aço (bobina laminada a quente) no mercado externo registraram variação negativa de 7,4%, enquanto a mesma série de preços convertida para reais registrou variação positiva de 7,2%. Essa discrepância, fruto da desvalorização cambial ocorrida no período, dá certa folga para os produtores nacionais aumentarem os preços praticados no mercado nacional sem uma piora adicional em termos de competitividade com o produto importado, ou seja, o ajuste nos preços visaria apenas manter estável o diferencial médio de preços entre mercado doméstico e externo vigente nos últimos dois trimestres.

Fonte: Tendências Consultoria
Seção: Siderurgia
Publicação: 24/07/2012

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