Indústria condiciona avanço em 2019 à consolidação de plano econômico

13 de dezembro de 2018

A indústria espera crescimento em 2019, baseado nas propostas do governo eleito de Jair Bolsonaro. Porém, a concretização desse avanço está condicionada a aprovação das reformas econômicas.

Nesta quarta-feira (12), a Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou a projeção de crescimento da economia brasileira em 2,7%, puxada pelo PIB industrial, que deve ter incremento de 3%. “Há uma expectativa de que tenhamos um ano de crescimento mais forte e a indústria tenha papel importante. Mas ainda falta uma confiança maior de que as reformas vão ocorrer, o que condiciona todo o resto”, avalia o professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), Mauro Rochlin.

O professor de economia do Ibmec-SP, Walter Franco, acredita que a projeção é factível, devido à capacidade ociosa da indústria. “Há espaço para crescimento. Mas a importância das reformas não pode ser esquecida, tanto a da previdência quanto a fiscal, e da manutenção do teto de gastos.” Para ele, além de concretizar a reforma da previdência e dar início à tributária, o governo Jair Bolsonaro deve focar na recuperação do crédito. “A demanda maior vai dar incentivo ao consumo. Ainda há fraca recuperação de massa salarial e emprego”, destaca.

O relatório da CNI cita como riscos à concretização do cenário de crescimento a não aprovação de reformas ou que elas avancem de maneira limitada. “Se o governo não oferecer a solução para a questão fiscal, os investimentos não vêm. É um fator prorrogador de decisões”, aponta Rochlin. “Sem essas reformas, fica difícil pensar em crescimento.” Também são enumeradas ameaças externas, como o acirramento das tensões comerciais, novas elevações de juros nos EUA e queda adicional do ritmo de crescimento do produto global. “São pontos importantes, mas recuperáveis”, acredita Franco, avaliando que as questões internas são mais urgentes.

O coordenador de economia e finanças do Ibmec-RJ, Ricardo Macedo, entende que a questão é saber se o novo governo terá agilidade para implementar as reformas. “Depende da Câmara e do Senado. O aspecto burocrático pode prejudicar o andamento das reformas, ou desidratá-las. Mas, para a indústria, qualquer reforma seria melhor do que nenhuma”, avalia.

Franco espera que, com o Congresso renovado, vai haver uma maior compreensão e pragmatismo para aprovar as reformas. “É muito difícil comparar a situação deste ano com 2019. O empresariado deseja essas reformas e o Congresso espelha muito isso.” Porém, ele ressalta que é preciso celeridade. “É necessário aproveitar o 1º trimestre para pelo menos apresentar as pautas e esclarecer, já em janeiro, qual será a agenda de privatizações.”

Em coletiva de imprensa, o presidente da CNI, Robson Braga de Andrade, declarou que a reforma da previdência deveria ser a primeira proposta a ser apresentada. “Sabemos que o Congresso começa a funcionar em fevereiro, após as eleições dos presidentes da Câmara e do Senado. Tenho expectativa que o governo vai conseguir fazer a reforma da previdência, que é a mais importante. Senão, terá que sinalizar de que outra forma o déficit será reduzido.”

Para Rochlin, caso o crescimento econômico se concretize, o segmento da indústria que mais se beneficiaria seria o de bens de consumo duráveis. “Na crise, é o segmento que mais sofre e, na retomada, é o que se recupera por último. Se a melhora se concretizar, o consumo de setores como automobilístico podem ser positivamente impactados.”

Ano frustrante

Na avaliação da CNI, o adiamento das reformas foi um dos fatores que prejudicou o desempenho da economia e da indústria em 2018. O crescimento ficou aquém do estimado no fim de 2017 e o PIB do País deve fechar o ano com crescimento de 1,3%, abaixo dos 2,6% previstos inicialmente. O PIB da indústria, inicialmente projetado em 3%, também deve crescer apenas 1,3%.

Para Macedo, a agenda reformista do governo Michel Temer fez com que se criasse expectativas positivas, que acabaram não concretizadas. “O governo foi se esvaziando e a indústria sofreu uma queda, que acabou impedindo que a economia alavancasse.”

Rochlin destaca que, desde 2017, o atual presidente acabou perdendo boa parte de seu capital político. “Desde o episódio com a JBS, o País vem em suspense, à espera de reformas que não vem, com sua legitimidade questionada”, diz, em referência à conversa gravada entre o dono da JBS, Joesley Batista, e o presidente Michel Temer, em maio de 2017.

Confirma abaixo publicação da CNI:

Economia brasileira crescerá 2,7% e indústria terá expansão de 3% em 2019, prevê CNI

Concretização do cenário positivo depende do ajuste das contas públicas e das reformas previdenciária e tributária. Desempenho do PIB em 2018 frustrou as expectativas

A economia brasileira crescerá 2,7% no próximo ano, impulsionada pela expansão de 3% da indústria e de 6,5% do investimento. O consumo das famílias, outro importante motor do crescimento, aumentará 2,9% em 2019. As previsões estão na edição especial do Informe Conjuntural – Economia Brasileira, que a Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulga nesta quarta-feira (12). No entanto, esse cenário só se confirmará se o governo eleito fizer o ajuste duradouro nas contas públicas, avançar nas reformas estruturantes, como a previdenciária e a tributária, e adotar medidas para melhorar o ambiente de negócios, entre as quais estão a desburocratização.

“O país deve se unir em favor de medidas que impulsionem o desenvolvimento econômico e social”, afirma o presidente da CNI, Robson Braga de Andrade.

Além das estimativas positivas para o próximo ano, o Informe Conjuntural destaca que há espaço para um crescimento maior e sustentado. “Se os avanços na agenda da transformação e das reformas forem substantivos, a resposta dos agentes econômicos poderá ser mais rápida e potencializar o crescimento”, avalia a CNI. “Os consumidores terão confiança para suas decisões de consumo e os empresários maior disposição para investir e contratar”, afirma o estudo. Com esse cenário, a taxa anual de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) poderá alcançar 3% ou mais no segundo semestre.

Por isso, Robson Andrade destaca que não há tempo a perder. “As tarefas são urgentes. É hora de avançarmos mais decididamente na total remoção dos obstáculos ao crescimento, com o enfrentamento de questões antigas, como as graves distorções do atual sistema previdenciário, que está à beira da inviabilidade financeira, e a complexidade do sistema tributário”, diz o presidente da CNI.

Essas e outras medidas prioritárias para o Brasil voltar a crescer estão na Agenda dos 100 Dias – Brasil 2019, que a CNI apresentou à equipe de transição do governo de Jair Bolsonaro. As sugestões foram selecionadas nos 42 documentos que a CNI apresentou aos candidatos à Presidência da República, em julho deste ano. “Há uma expectativa muito grande que o governo Bolsonaro fará  a reforma da Previdência”, afirma Robson Andrade. “Se o governo não conseguir reformar a Previdência terá de apontar outros caminhos para reduzir o déficit público”, completa. O Presidente da CNI explicou ainda que o Brasil investe pouco em infraestrutura e falou sobre a necessidade de ampliar esses investimentos. Assista:

DESEMPREGO E INFLAÇÃO – Outras previsões da indústria para o próximo ano indicam que a taxa de desemprego cairá para 11,4%, a inflação ficará em 4,1%, a taxa nominal de juros básicos da economia alcançará 7,50% ao ano no fim de 2019 e a cotação média do dólar será de R$ 3,78.  A balança comercial fechará 2019 com um saldo positivo de US$ 45 bilhões. A dívida pública continuará subindo e alcançará 79,5% do PIB.

Mas há riscos, sobretudo internos, à concretização do cenário virtuoso previsto pela indústria. De acordo com o Informe Conjuntural, se o país optar por reformas limitadas ou incompletas, a confiança dos empresários e consumidores diminuirá, o que conduzirá o país à estagnação da economia, como ocorreu em 2017 e 2018. O pior, no entanto, é o adiamento ou a opção por não fazer as reformas.

“Essa situação poderá ter um afeito devastador na confiança dos agentes, causando rápida deterioração dos indicadores de risco-país, ativos financeiros e taxa de câmbio, com reflexos na taxa de juros doméstica. Nesta situação, seria possível até mesmo o retorno do quadro de recessão que marcou o meio da década atual”, adverte a CNI.

FRUSTRAÇÃO EM 2018 – O adiamento das reformas foi um dos fatores que prejudicou o desempenho da economia e da indústria neste ano. O Informe Conjuntural lembra que o crescimento de 2018 ficou aquém do estimado no fim de 2017. O PIB do país deve fechar o ano com crescimento de 1,3%, abaixo dos 2,6% previstos inicialmente. O PIB da indústria também deve crescer apenas 1,3%, menos do que os 3% estimados no início do ano.

A expansão de 1,3% da economia brasileira está distante do crescimento médio de 3,7% estimado para a economia mundial. “O Brasil segue, portanto, aumentando o hiato que nos separa das economias avançadas e das emergentes”, informa a CNI.

Além do adiamento das reformas, sobretudo a da Previdência, o estudo lembra que as incertezas sobre as eleições, a greve que paralisou os transportes no país e o desemprego elevado prejudicaram a recuperação da atividade econômica em 2018.  Esses fatos impediram que a inflação baixa e a queda dos juros tivessem um efeito mais positivo sobre a economia.

SAIBA MAIS – Faça o download do Informe Conjuntural – Economia Brasileira no Portal da Indústria.

Fonte: DCI
Seção: Economia & Indústria
Publicação: 13/12/2018

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