Longe de ser uma “Gerdau”: por que ninguém quer se arriscar no rali de 180% da CSN?

17 de agosto de 2016

Paula Barra

As ações da siderúrgica CSN (CSNA3) disparam 180% no ano, mas o mercado insiste em olhar no setor apenas para os papéis da Gerdau (GGBR4), que depois dois anos difíceis na Bolsa (queda de 73% entre 2014 e 2015) se transformaram em “queridinhos” do mercado nos últimos meses, com investidores atentos à alta de quase 200% da ação da mínima deixada no ano dia 26 de janeiro até agora. Mas isso faz sentido? O que a Gerdau tem que a CSN não tem, lembrando que a última disparou da mínima de janeiro até este pregão 250% na Bolsa, ou seja, mais que a primeira?

A começar, basta olhar para o resultado das empresas para encontrar uma resposta razoável: enquanto Gerdau é a única que tem entregado fluxo de caixa positivo trimestre a trimestre – mesmo que ainda baixo -, as demais concorrentes CSN e Usiminas (que no ano acumula alta de 158%) sofrem com caixa negativo, alertaram os analistas Pedro Galdi e Marco Saravalle, da Upside Investor, que estiveram na edição desta terça-feira do Comprar ou Vender (que pode ser conferido clicando aqui).

A CSN, que reportou balançou ontem à noite, teve um prejuízo líquido de R$ 57,24 milhões no 2° trimestre, redução de 90% frente o registrado no mesmo período do ano passado e de 93% contra os R$ 836,69 milhões do primeiro trimestre. Por outro lado, a receita líquida da companhia caiu 23,6%, para R$ 2,19 bilhões.

Para Galdi e Saravalle, esse rali dos papéis da siderúrgica não decorre de fundamento, mas sim de movimentos especulativos e reversão de posições vendidas de investidores no papel, lembrando que por terem sofrido bastante nos últimos anos foram ativos bastante procurados por investidores que buscavam papéis para aluguel na Bovespa. Só para se ter uma ideia, a posição alugada em CSN no mês de janeiro, quando bateram mínima do ano, era de cerca de 70 milhões de ações, agora é de aproximadamente 40 milhões, ou queda de 42% em 7 meses, segundo informações do site Dados da Bolsa.  

Rali é oportunidade para realização

Dito isto, eles não veem nessas altas – tanto de CSN como Usiminas – boas oportunidades na Bolsa. Segundo os analistas Galdi e Saravalle, essa forte valorização é oportunidade de realização. “Nossa recomendação é de venda da ação”.

Não muito diferente disso, o BTG Pactual reiterou em relatório divulgado hoje recomendação de venda para CSNA3, vendo um potencial de queda de 73% dos papéis frente ao fechamento de ontem. O preço-alvo para as ações é de R$ 3,00. Os analistas destacam que os resultados da siderúrgica referentes ao segundo trimestre desse ano foram fracos, com Ebitda (Lucro antes de Juros, Impostos, Depreciações e Amortizações, na sigla em inglês) de R$ 855 milhões, cifra 12% abaixo do que estimavam.

Analistas do Credit Suisse também atribuíram uma avaliação bem similar ao balanço: fraco, com geração de caixa novamente negativa e despesas financeiras representando 93% do Ebitda, enquanto a alavancagem continua alta, apesar da redução neste trimestre para 9,1 vezes a dívida líquida/Ebitda. Eles ressaltaram também que o resultado da companhia reforça a necessidade de venda de ativos para gerar caixa e desalavancar. “A posição atual de caixa de R$ 5,5 bilhões é suficiente para pagar as dividas até final de 2017 (de R$ 2,5 bilhões), com fluxo de caixa negativo de R$ 680 milhões. Mas, para isso, ainda será necessário: 1) desinvestimentos relevantes; 2) melhora significativa do mercado; ou 3) rolagem da dívidas que vencem em 2018”, comentaram.

CSN + Usiminas x Gerdau

Quando fala-se em Usiminas e CSN tem que pensar em aço plano – segmento em que atuam – e que está voltado para setores (como o automobilístico) que estão preocupantes, com vendas fracas trimestre a trimestre, comentou Galdi. Segundo ele, as vendas físicas de CSN no 2° trimestre praticamente não mostraram nenhuma mudança em relação ao mesmo período de 2015, o único ponto em relação ao segmento de aço que mudou um pouco no resultado foi que ela conseguiu aumentar os preços do produto.

Além disso, embora a parte do minério de ferro vindo melhor, com alta no volume de vendas de 55% quando comparado com o mesmo período de 2015, isso foi basicamente por conta de a empresa ter incluído a Congonhas minérios ao final do ano passado, comentou o analista. Segundo ele, enquanto a economia não voltar a dar sinais nítidos – não desprezando os sinais de recuperação que já são vistos -, a empresa seguirá penalizada. “A demanda por aço ainda vai um pouco a voltar”, acredita.

 Por outro lado, a Gerdau, que atua com aço longo, tem uma perspectiva mais otimista pela frente, aliado ainda à sua exposição aos mercados globais, com foco nos Estados Unidos e América Latina. “Então, mesmo com a fraqueza do Brasil, ela consegue apresentar resultados mais interessantes”, ressaltou.

Para ele, olhando por fundamentos, a alta da ação da Gerdau é razoável, enquanto CSN e Usiminas, não. “Eu acho que os papéis podem continuar evoluindo no mercado, com a Bolsa subindo, mas alertamos ao investidor que tome cuidado com essas duas últimas ações”, comentou. É importante que o investidor tenha em mente que essas ações sobem mais forte por terem um beta mais alta, ou seja, se a Bolsa sobe tende a ganhar mais papéis com beta maior, como CSN e Usiminas – o que explica parte do movimento deste ano, complementa Saravalle. Isso, no entanto, não significa que estejam interessantes: “Gerdau dá para ter em carteira e carregar, porque para ela vai ser muito mais rápida a volta dos resultados; já as demais, não”, ponderou Galdi. 

Fonte: Infomoney
Seção: Siderurgia
Publicação: 17/08/2016

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