Mineração e petróleo puxam recuperação da indústria brasileira

5 de junho de 2017

Corrêa

Em um ano marcado por incerteza — principalmente após o agravamento da crise política —, o segmento de extração de petróleo e minério deve ser o ponto forte da tímida recuperação da indústria brasileira. Essa é a avaliação de analistas, após os dados divulgados ontem pelo IBGE, que mostram que o setor apresenta o mesmo comportamento do restante da economia: cresceu, mas não convenceu. Em abril, a produção industrial teve alta de 0,6% frente a março, o primeiro resultado positivo do ano e a maior alta para o mês desde 2013, mas insuficiente para recuperar as perdas dos meses anteriores. Em março, a indústria havia recuado 1,3%.

O setor extrativo até registrou perda na passagem de março para abril, de 1,4%, mas, no acumulado dos quatro primeiros meses do ano, registra alta de 7,2%. Situação bem melhor que a da indústria geral, que está no negativo em 0,7%.

Segundo projeção da Tendências Consultoria, a indústria extrativa deve encerrar o ano com alta de 7%, respondendo por 1 ponto percentual da esperada alta de 2,4% da indústria geral — projeção mais otimista que a mediana do mercado.

— Nossa avaliação é que isso (as perdas nos últimos meses) não vai ser a tônica do ano. Estamos com cenário de expressivo crescimento em 2017. Vai ser um dos vetores de crescimento da indústria. Temos projetos que já começaram no ano passado, como o S11D (projeto de minério de ferro da Vale), e vemos a Petrobras entrando com algumas plataformas em funcionamento este ano — destaca Thiago Xavier, economista da Tendências.

Farmacêutico foi destaque em abril

Paulo Val, economista-chefe do Brasil Plural Asset Management, também vê potencial no segmento, principalmente considerando a possibilidade de exportação, em um momento de demanda interna fraca, que tem derrubado setores essencialmente dependentes do mercado consumidor doméstico.

— Provavelmente, se tivermos uma notícia boa, há grande chance que seja desse setor — avalia o economista.

Sobe e desce

Rodrigo Nishida, economista da LCA, destacou que a indústria extrativa é um dos exemplos de segmentos que podem sentir menos os efeitos da incerteza política, por já terem projetos contratados. Mas calcula que o impacto positivo se esgotará nos próximos meses.

— Considerando a comparação interanual, a indústria extrativa deverá continuar registrando altas relevantes ao longo do ano. No entanto, na relação marginal, a contribuição deverá ser menor nos próximos meses — afirma Nishida.

Já Artur Passos, economista do Itaú Unibanco, calcula que os números positivos da indústria extrativa refletem mais o desempenho de 2016:

— Apesar de ter recuado na margem nos últimos três meses, deve continuar positiva na comparação anual por mais alguns meses. A alta em 2016 reflete a recuperação na produção de petróleo, entre outros produtos.

À exceção do setor extrativo, os dados de abril da indústria indicaram recuperação frágil, segundo analistas. A alta de 0,6% de abril foi sustentada praticamente pelo avanço de 19,8% da indústria farmacêutica, que recuperou parte da perda de 23,4% registrada no mês anterior. Sozinho, respondeu por 0,5 ponto percentual do resultado do mês, segundo estimativa da Tendências. Não fosse o segmento, que é muito volátil, a alta seria de 0,1%.

Na avaliação de André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do IBGE, o dado mostra uma tendência de estabilização, o que significa que a indústria parou de piorar. Mas é cedo para falar em recuperação.

— Dos quatro principais impactos que tiveram influência positiva importante, todos tiveram comportamento negativo no mês anterior, o que reforça o caráter errático da produção industrial. Não fica clara uma retomada.

As expectativas para o restante do trimestre não são animadoras. O Itaú Unibanco já projeta queda de 1% em maio, enquanto outros analistas não descartam taxas negativas nos próximos dois meses, refletindo eventuais impactos da turbulência política causada pela delação da JBS, no mês passado.

— Se essa incerteza realmente tiver um impacto muito forte, o que está diretamente relacionado ao tempo, pode fazer com que as expectativas de demanda, que melhoraram na sondagem, sejam frustradas. E isso pode causar aumento de estoques, como se a indústria estivesse dando um passo atrás — afirma Tabi Thuler Santos, coordenadora de Sondagem de Indústria do Ibre/FGV.

Fonte: O Globo
Seção: Mineração
Publicação: 05/06/2017

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