O drama sem fim da Usiminas

16 de maio de 2016

As cenas pitorescas vistas em Brasília nos últimos meses levaram a política brasileira a ser comparada ao seriado americano House of Cards, que conta as artimanhas do deputado Frank Underwood na sua busca por poder nos Estados Unidos. Se, por um lado, Brasília pode ser comparada a um show tragicômico, a história recente da siderúrgica Usiminas pode ser vista como uma novela mexicana, bem dramática.

Desde 2014, a empresa mineira, dona de um faturamento de R$ 10,2 bilhões no ano passado, sofre com todos os tipos de intrigas: presidente afastado, brigas entre acionistas, acusações de benefício indevido a um dos controladores, ameaças em assembleias e minoritários buscando mudanças na diretoria. Os personagens principais da trama, os japoneses da Nippon Steel, os ítalo-argentinos da Ternium e a siderúrgica rival CSN, de Benjamin Steinbruch, culpam uns aos outros pelo atual momento da companhia, que viu suas ações atingirem a mínima histórica em 2016.

Os papéis preferenciais, que alcançaram R$ 19, em 2011, eram negociados a R$ 0,85, em fevereiro deste ano. Na quinta-feira 12, as ações fecharam o pregão cotadas a R$ 2,32. No mais recente capítulo da novela, um aporte de R$ 1 bilhão se transformou em motivo para uma troca de conselheiros. A Justiça, no entanto, adiou a nomeação, jogando ainda mais lenha na fogueira. O grande desafio, nesse dramalhão corporativo, é definir quem são os mocinhos e os vilões.

A trama começa em 2014, com a briga societária entre Nippon Steel e Ternium. Em setembro daquele ano, o ex-presidente Julián Eguren, ligado aos ítalo-argentinos, e parte da direção foram afastados, acusados de recebimentos de bônus irregulares. Por indicação da Nippon, Eguren foi substituído por Rômel Erwin de Souza, então vice-presidente. “A relação entre as duas companhias é a pior possível”, diz um antigo conselheiro da empresa, sob a condição de anonimato. “A grande responsabilidade do que está acontecendo é dos controladores, não da crise econômica.”

O cenário é, de fato, alarmente: nos últimos três trimestres de 2015, a geração de caixa da empresa foi negativa. A companhia ainda enfrenta um cenário adverso no mercado de aço. No ano passado, a produção brasileira da commodity caiu 1,9%. Na Usiminas o tombo foi ainda maior. O volume de vendas da siderurgia mineira retraiu 11%, em 2015, o que derrubou sua receita em 13%. Para conter as perdas, neste ano, a empresa fechou a usina de Cubatão, em São Paulo. Apenas nesse desligamento, a empresa cortou 1,8 mil funcionários.

Nem a chegada do empresário Lírio Parisotto, que comprou 1% das ações ordinárias e 5% das preferenciais da Usiminas, em abril de 2015, e reuniu os minoritários para apaziguar o clima, reduziu a tensão. No dia 18 de abril, no entanto, houve uma trégua. Nippon e Ternium anunciaram um aporte de R$ 1 bilhão na siderúrgica, via subscrição de ações. “Os bancos precisavam desse aceno para rolarem as dívidas”, afirma Pedro Galdi, analista independente. A decisão criou ainda mais confusão, dessa vez com a empresa de Steinbruch.

A CSN detém 14,1% das ações ordinárias, com direito a voto, e 20,7% das preferenciais da Usiminas. Por decisão do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), no entanto, a CSN nunca pode assumir uma cadeira no conselho. Temendo perder ainda mais espaço na Usiminas, Steinbruch foi à Justiça contra o aumento de capital proposto por Ternium e Nippon e solicitou ao Cade um lugar entre os conselheiros da siderúrgica mineira. “O aporte via subscrição é uma forma de diminuir ainda mais o poder dos minoritários”, afirma Fábio Spina, diretor jurídico da CSN.

O aporte foi liberado pela Justiça. O Cade, por sua vez, atendeu ao pedido e deu dois assentos para a CSN no conselho da Usiminas, no dia 27 de abril. “O órgão entendeu que queríamos colocar conselheiros independentes para eles auxiliarem na recuperação da empresa”, diz Spina. Mas uma decisão judicial, na quarta-feira 11, frustrou a CSN. A juíza Patricia Santos Firmo, da 2ª Vara Empresarial do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, após pedido conjunto feito por Nippon e Ternium, suspendeu a eleição dos conselheiros.

Segundo ela, a participação da CSN não era fundamental para a representação dos minoritários, uma vez que eles já tinham cadeiras no colegiado. O bloco controlador comemorou a decisão. Para eles, a intenção de Steinbruch não é ajudar a empresa, mas interferir nas decisões. Um e-mail, anexado ao processo, segundo a juíza, mostraria que o advogado da CSN, Daniel Douek, estaria instruindo os conselheiros. “O Steinbruch vai colocar pessoas para tumultuar ainda mais o ambiente”, diz um conselheiro, que não quis se identificar. “Ele quer que os controladores fiquem exaustos, comprem as ações dele e diminuam seu prejuízo.” Procurado pela DINHEIRO, Steinbruch não se pronunciou.

Enquanto as brigas continuam, a Usiminas vai sangrando. Suas ações despencaram 60% nos últimos 12 meses. A empresa, que já valeu R$ 21,4 bilhões, em 2011, hoje tem um valor de mercado abaixo de R$ 3 bilhões. Vendo seu investimento ir pelo ralo, executivos da CSN disparam críticas a todos os lados. “Os minoritários não fizeram nada desde que assumiram e não pressionaram a gestão por mudanças”, afirma um executivo da CSN, que nega outra hipótese ventilada no mercado: a de promover o enfraquecimento das ações da Usiminas, visando uma aquisição. “Quem compraria uma empresa nesse estado?”

Já as críticas contra a atual gestão são feitas em coro, exceto pela Nippon. A Ternium, durante a assembleia do dia 28 de abril, que ratificou o aporte, acusou Souza e a Nippon de “violarem seus deveres fiduciários.” Um exemplo seria a omissão de dados sobre o desligamento do forno de Cubatão, no final de 2015. “Os resultados falam por si”, diz Paulo Caffarelli, diretor-corporativo da CSN. “A Usiminas precisa de uma gestão à sua altura.”

Há o temor de que a empresa entre em recuperação judicial, o que Souza nega. “Se entrar em recuperação judicial, perdem todos”, afirmou o presidente da Usiminas à DINHEIRO. “O aporte de R$ 1 bilhão é parte da solução.” Procuradas, Nippon e Ternium não se posicionaram. Mas é notório o movimento dos ítalo-argentinos para a mudança da diretoria. “A Ternium sabe que Souza arrumou a casa e os resultados virão em breve”, diz um conselheiro ligado à Nippon. “Eles querem roubar o mérito.” A novela está longe do final.

Fonte: Isto É
Seção: Siderurgia
Publicação: 16/05/2016

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