Recuperação da cadeia siderúrgica deve vir somente a partir de 2016

22 de maio de 2015

A baixa atividade industrial tem levado a cadeia do aço a se preparar para o pior. Os principais segmentos demandantes, como automotivo e de máquinas, continuam em dificuldades e a expectativa do mercado é de retomada só a partir de 2016.

 “O cenário econômico continua desfavorável e ainda tenho dúvidas se a recuperação virá em 2016”, afirma o economista da LCA Consultores, Wermeson França.

 Para 2015, a consultoria projeta uma queda da produção de aço bruto no País em torno de 3% com viés de baixa. “Existe a probabilidade de recuperação do setor para 2016, mas pode ser que a retomada só venha mais para frente”, destaca França.

 Uma prova de que o negócio siderúrgico vai muito mal foi o anúncio da Usiminas, na noite de segunda-feira (18), de que serão desligados temporariamente dois altos-fornos da companhia, um em Cubatão (SP) e um em Ipatinga, Minas Gerais.

 “Este é um sinal claro de crise, pois desligar um alto-forno e depois religá-lo é altamente custoso para as siderúrgicas. É realmente o último recurso que estas empresas utilizam”, destaca.
 A Usiminas informou, em comunicado, que a decisão é temporária e que decorre de “estoques elevados e dos indicadores de confiança em patamares mínimos”.

 Em Cubatão, o alto-forno será desligado em 31 de maio e, em Ipatinga, em 4 de junho. Com isso, haverá a redução da produção de ferro gusa em cerca de 120 mil toneladas por mês.
 O processo de desligamento de um equipamento desse tipo leva até seis meses, devido à complexidade da operação e dos riscos envolvidos.

 A siderúrgica informou ainda que vem avaliando “constantemente o equilíbrio entre a demanda do mercado e o seu quadro de pessoal” e que o foco da companhia é “preservar ao máximo a força de trabalho”. Segundo fontes do setor, a Usiminas deve usar férias coletivas e bancos de horas para adequar a mão de obra ao desligamento dos dois altos-fornos, já que se trata de uma força de trabalho especializada.

 Para o presidente do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Produtos Siderúrgicos (Sindisider), Carlos Loureiro, a decisão da Usiminas reflete a situação difícil que o mercado atravessa.

 “Esta é uma sinalização de que estamos entrando no olho de um furacão”, comentou o dirigente durante divulgação do balanço mensal do setor nesta terça-feira (19).

 Segundo o economista da LCA, os segmentos demandantes de aço vêm sofrendo quedas sucessivas, o que acaba pressionando usinas e também distribuidores do insumo.

 “Principalmente o mercado automotivo tem registrado um desempenho muito fraco”, ressalta França. O segmento é responsável por 35% do consumo de aço no País e, no acumulado do ano, a atividade recuou mais de 18%.

 Ainda segundo França, o mercado de aços longos também vai mal devido à desaceleração da construção civil. “E este negócio exporta menos do que o de planos, o que agrava a situação das usinas no mercado doméstico”, acrescenta.

 Distribuição

 A rede de distribuição também sente a retração da atividade industrial. O setor tem registrado desempenho semelhante aos patamares de 2009. “Só que naquela época havia sinais de retomada. Hoje, não temos visibilidade alguma”, pondera o presidente do Sindisider.

 No acumulado do ano, as vendas dos distribuidores recuaram 16,4% em relação a igual período de 2014. “Foi o pior abril dos últimos cinco anos”, diz Loureiro. Com isso, o giro de estoques subiu para 3,7 meses, sendo o patamar de 2,5 meses o ideal.

 “Se as nossas projeções se confirmarem, o giro de estoques pode subir para 4,1 meses em maio, o maior desde 2009”, acrescenta o dirigente. De acordo com o Sindisider, para este mês a previsão é de queda de 10% das vendas pela rede de distribuição de planos.

 Loureiro ressalta que o segundo trimestre deve ser muito ruim e que uma possível retomada só deve acontecer no último quarto do ano. “Os ajustes fiscais são uma quimioterapia para o País, pois apesar de necessária, deixa efeitos colaterais”, diz.

 Segundo ele, a entidade não deve mudar, ao menos por enquanto, a projeção para o ano, que é de recuo em torno de 5%. “Mas já sabemos que há um viés de baixa”, revela.

 De acordo com Loureiro, alguns distribuidores já trabalham com semana de quatro dias devido à retração do mercado. “Uma estimativa da rede é que possa ter havido uma redução da mão de obra em torno de 5% neste ano”, diz.

 Importações

 Outro fator que contribuiu para o desempenho negativo do negócio de aço, no País, foi o aumento das importações.

 No acumulado do ano, somente a China foi responsável por mais de 60% da entrada de planos no Brasil.

 “A nossa esperança é que em cerca de três meses as importações recuem um pouco devido à escalada do dólar”, informa Loureiro.

 No primeiro quadrimestre, as importações somaram 634,7 mil toneladas, um aumento de 9,7% em relação a igual período do ano passado. Segundo Loureiro, o grande responsável pela entrada maciça de aço no Brasil é a China.

 “O país asiático tem capacidade sobrando e, por isso, ganha mercado com preço”, explica o executivo.

 Para o economista da LCA, no entanto, com a retração da economia e com consequente enfraquecimento da demanda doméstica, as importações devem apresentar ligeiro recuo em 2015, principalmente com a valorização do dólar.

 “A importação só consegue avançar se a demanda também crescer”, pontua França.

 Segundo projeções da consultoria, neste ano as importações de aços planos devem totalizar 2 milhões de toneladas, uma queda de 1,3% em relação a igual período de 2014.

 Já a entrada de aços longos deve se manter estável em 2015, somando cerca de 1,2 milhão de toneladas.

Fonte: G1
Seção: Siderurgia
Publicação: 22/05/2015

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