Ritmo de reajustes de preços dos materiais continuará em 2021

4 de janeiro de 2021

A restrição de oferta de alguns insumos, a desvalorização do real e o aumento de preços internacionais de commodities resultaram em reajustes, neste ano, de produtos pela indústria de materiais de construção. O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) aumentou 8,1% de janeiro a novembro, contra IPCA de 3,13% no período. Diante da continuidade da pressão de custos, há fabricantes que já preparam novas altas de preços, enquanto outros informam que continuarão a avaliar o cenário antes de novos ajustes.

No segundo semestre, a Lorenzetti fez dois aumentos de preços, que somaram dois dígitos. Resina e PVC foram os itens que mais pressionaram os custos da fabricante de duchas, chuveiros elétricos, metais sanitários e purificadores de água. Segundo o vice-presidente, Eduardo Coli, devido às altas recentes dos insumos, a empresa fará novo reajuste, em janeiro, mas ainda não definiu percentual, nem se abrirá mão de margem.

“Estamos no limite do estoque de matérias-primas”, diz Coli. Há preocupação, segundo ele, de como será o abastecimento de matérias-primas, no primeiro trimestre, quando o feriado do Ano Novo Chinês tende a contribuir para maior escassez de insumos.

Conforme o desempenho do início do ano, a Lorenzetti poderá rever sua projeção de crescimento de dois dígitos em 2021. A projeção considera expansão do Produto Interno Bruto (PIB) de 4,5% e a volta do mercado “a uma certa normalidade”, segundo Coli.

Recentemente, a Vedacit reajustou seus preços em 6% para compensar aumentos de custos das matérias-primas. A fabricante de impermeabilizantes, mantas asfálticas, protetores de superfície, selantes, aditivos para concreto e argamassas tem o asfalto como um dos insumos com forte peso na composição dos custos.

“No primeiro trimestre, teremos novo reajuste de preços”, diz Marcos Bicudo, presidente da Vedacit, ressaltando que a maior parte dos seus custos é dolarizada. Segundo Bicudo, os aumentos não têm como objetivo elevar margens, mas recompor altas de insumos.

Em setembro, passou a haver, de acordo com o presidente da Vedacit, falta de itens como embalagens metálicas, caixas de papelão e rótulos, situação que teve seu momento mais crítico em novembro. A empresa buscou novos fornecedores, ao mesmo tempo que aprimorou o abastecimento que já possuía. Na avaliação do executivo, o reequilíbrio tende a ocorrer a partir do segundo trimestre de 2021, quando Bicudo espera que “a cadeia de valor se reorganize”.

Para Antonio Serrano, presidente da Juntos Somos Mais – empresa da qual Votorantim Cimentos, Gerdau e Tigre são sócias -, a tendência é que haja equilíbrio nos preços de materiais, no médio prazo, considerando-se que ainda há “muita capacidade ociosa no setor”. Ele cita que o INCC aumentou 8,1% de janeiro a novembro. “Em 2020, houve um crescimento de demanda inesperado e valorização muito forte do dólar. Muitas indústrias de materiais tiveram dificuldade para receber, por exemplo, embalagens e resina”, diz.

Segundo Serrano, em dezembro, 22% das indústrias de materiais conseguiram atender à totalidade da demanda do varejo, fatia que era de 11% em outubro. Neste mês, 11% dos fabricantes tiveram demanda 30% acima da que conseguem atender, ante a parcela de 33% no mês de outubro.

A Wavin (ex-Mexichem) – conhecida, principalmente, por tubos e conexões com a marca Amanco Wavin – foi muito impactada pelos aumentos de custos com resina, neste ano, somados à desvalorização do real. Segundo o diretor geral da Wavin no Brasil, Daniel Neves, parte das altas foi repassada para os preços dos produtos, e outra parcela, absorvida.

“Repassamos o mínimo possível para continuar a operação”, diz Neves, sem informar percentuais. Conforme o executivo, a Wavin fez “alguns ajustes ao longo do ano”. Não há novos aumentos programados. “Mas estamos à mercê do mercado de resina”, afirma.

No início de novembro, o presidente da Duratex, Antonio Joaquim Oliveira, informou que a estrutura eficiente de custos da companhia tem possibilitado reduzir o impacto da pressão de preços de matérias-primas como resinas e papéis importados. Para recompor os aumentos de custos, foram feitos ajustes de preços em todas as linhas, em patamar inferior a 10%.

Na ocasião, Oliveira informou também que a Duratex tem reprogramado entregas e abastecido clientes com prazos maiores. A companhia chegou a ter todas as fábricas paradas no período de maior retração da demanda neste ano. Posteriormente, precisou operar à plena capacidade. A empresa atua em painéis de madeira, louças e metais sanitários, chuveiros e revestimentos cerâmicos.

O grupo Saint-Gobain também reajustou preços devido à pressão nos custos de matérias-primas. A empresa não tem previsão de novo aumento de preços, no Brasil, mas ressalta que o cenário econômico “ainda se mostra muito incerto”. Temos de aguardar como será a vacinação e também como o mercado vai reagir a tudo isso”, informa o grupo, em nota.

Assim como outros setores, a indústria siderúrgica sentiu forte retração de demanda por seus produtos no início da pandemia. Na sequência, o consumo de aço se normalizou e, posteriormente, teve forte retomada.

No fim de novembro, em encontro com o presidente da República, Jair Bolsonaro, o presidente executivo do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes, ressaltou que o desligamento temporário de alto-fornos não prejudicou a construção, pois “quase a totalidade” do insumo utilizado pelo setor é produzido nas aciarias elétricas, à base de sucata, que têm religamento rápido. Há expectativa que, em 2021, o consumo aparente de aços longos tenha alta de 5,5%, segundo o Instituto Aço Brasil.

Fonte: Valor
Seção: Construção, Obras & Infraestrutura
Publicação: 04/01/2021

Compartilhe nas redes sociais