‘Sem fazer o dever de casa, Brasil terá de rezar em mandarim’, diz Castro

19 de setembro de 2014

O presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, está convencido que o Brasil “terá de rezar muito em mandarim no futuro” se não fizer o dever de casa urgente.

“Analisamos a China sob o lado do bem e do mal. Do bem quando ela compra nossas commodities com preço alto. Do mal quando os chineses vendem aqui com preço mais baixo do que o nosso custo de produção. O produto brasileiro não tem condições concorrer com o chinês nem no Brasil. E do que importamos da China, 100% é de manufaturados. E do que exportamos, só 5% são manufaturados. Há um descasamento total”, constata.

Diante das dificuldades no curto prazo, ele se diz preocupado desde já com o que acontecerá daqui a cinco anos. “Até lá vamos continuar dependendo das exportações para a China, mas dentro de alguns anos a situação pode piorar. Os chineses investem muito na África para depender menos de nossas matérias-primas. Além disso, os preços do minério de ferro estão caindo fortemente e isso será ainda mais acentuado em 2015. Os preços da soja também serão atingidos”, diz Castro. O Brasil vendeu por US$ 14,50 o bushel de soja (preço médio) neste ano, mas a partir de setembro, com a safra recorde nos EUA, o valor foi para US$ 10 o bushel. Os preços do açúcar e da celulose também deverão ficar menores ano que vem. As carnes bovinas estão salvando e continuarão ancorando as vendas externas, mas as de frango acompanharão o rebaixamento dos preços da soja, insumo da ração.

Chineses definirão preço

Em resumo: a perspectiva para 2015 é de mais queda nos preços das commodities e a China contribuirá com isso, mesmo que o crescimento do PIB continue desacelerando, ao redor de 7,5%. “É só cruzar o volume de produção na Argentina, EUA e Brasil, os maiores produtores mundiais do agronegócio, e que está muito boa, com uma demanda deprimida. E a demanda chinesa vai acabar definindo os preços. Infelizmente, nós não temos peso para isso. União Europeia e Estados Unidos também são importantes, mas o grande divisor de águas é o mercado chinês”, diz o presidente da AEB.

No caso do minério brasileiro, por exemplo, 80% da produção são consumidos pelos chineses. “Internamente, a China pratica uma política de comunista, de decisões centralizadas, mas externamente é capitalista”, conclui.

Gargalos

Além dos fatores externos, existem os gargalos internos. O que acontece com o milho é emblemático: a cotação internacional cai e o Brasil não tem preço competitivo para exportar. “Para levar o milho do Mato Grosso até o Porto de Santos são US$ 100 a tonelada. E o produto é exportado por US$ 180 a tonelada. Exportamos milho ou frete?”, questiona Castro. Como neste ano a safra normal e a safrinha de milho foram boas, há excesso do produto e preço ruim. Enquanto isso, os EUA, que também colhem uma supersafra do grão, têm custo melhor e compete com vantagem no mercado internacional. “Se o custo da soja se mantiver alto e os preços no patamar atual, teremos o mesmo problema com este produto”, acrescenta.

Para o presidente da AEB, “continuamos com elevadíssima produtividade da porteira para dentro, mas da porteira para fora, os entraves são múltiplos: logística insuficiente e cara, carga tributária alta”. O frete, via caminhão, da tonelada de soja produzida no Mato Grosso sai por US$ 100 até Santos (SP), e mais US$ 40 do porto para a China, representando US$ 140 só de transporte no preço de venda total de US$ 515. “Como esse preço está caindo a US$ 450 a tonelada, já podemos prever o que vai acontecer”, complementa.

Manufatura

No campo dos manufaturados, a situação é ainda mais complexa. “O Brasil está tentando bater na porta da China. Hoje, é irrisória a nossa participação nesse mercado. Do que é exportado para o nosso maior parceiro comercial, só 5% são industrializados e do total das exportações brasileiras, 35% são manufaturados, concentrados na América do Sul. Existem chances de melhorar? No curto prazo não. Não temos preços competitivos nem para concorrer na União Europeia e Estados Unidos, muito menos na China”, lamenta Castro.

Enfrentar essas deficiências é importante não só pensando no mercado chinês. “Enquanto o Brasil não fizer o dever de casa, com as reformas que precisam ser feitas nossa, exportação permanecerá prejudicada”, conclui.

O mais urgente

Enquanto o governo e o setor privado não chegam a um consenso sobre os caminhos que o Brasil deverá trilhar para superar as dificuldades e galgar melhor posição no comércio mundial, algumas iniciativas mais urgentes poderiam acontecer. Para o vice-presidente do Instituto de Estudos Latino-americanos do Instituto de Relações Internacionais Contemporâneos da China (Cicir), Sun Yanfeng, a atual fase da parceria Brasil-China traz a perspectiva de uma cooperação mais ampla, inclusive na área cultural, com a venda de telenovelas e filmes brasileiros ao mercado chinês, como avalia vice-presidente do Instituto de Estudos Latino-americanos do Instituto de Relações Internacionais Contemporâneos da China (Cicir), Sun Yanfeng. Mas também acende um sinal amarelo. “O mais urgente é construir uma estrutura comercial melhor entre os dois países. A China está mudando seu modelo econômico, desacelerando o crescimento. As consequências disso nas importações, que vão cair, não serão desprezíveis para o comércio com o Brasil”, assinala o acadêmico.

Com ele concorda a diretora do Cicir, Wu Hongying. “Governos e empresas dos dois países deveriam colocar isso na pauta para reduzir as consequências negativas dessas mudanças, que ocorrem num momento em que o Brasil cresce muito pouco, a Europa e os Estados Unidos demoram a se recuperar”, afirma.

No entanto, há uma boa notícia: as importações de ferro vão cair, mas com os estímulos do governo chinês ao aumento do consumo interno, o que se espera é a ampliação das importações de commodities de grãos (soja, principalmente) e também da carne do Brasil.

“Uma nova estrutura comercial bilateral está prestes a acontecer entre os dois países. Minério de ferro, soja e petróleo representavam 80% das exportações brasileiras para a China no passado. O futuro vai ser de produtos agrícolas e serviços financeiros. Até novelas, mídia e filmes são áreas com potencial aqui”, explica Sun Yanfeng. (Diário do Povo)

Fonte: DCI 
Seção: Economia 
Publicação: 19/09/2014

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