Setor siderúrgico aposta na exportação para vencer crise

28 de agosto de 2015

Leonardo Francia

Em meio à pior crise da sua história, a indústria siderúrgica nacional aposta nas exportações como saída para este momento complicado. Entretanto, a sobreoferta de aço no mercado mundial e o bombardeio de produtos siderúrgicos chineses mundo afora prometem tornar a concorrência ainda mais acirrada para o aço brasileiro.

“Estamos vivendo com certeza a pior crise que a siderurgia já passou em toda a sua história. Essa crise é pior do que a de 2008, quando tivemos seis de 14 altos-fornos abafados.  pior porque, em 2008, vínhamos de um período de crescimento, o setor estava capitalizado e a saída foi mais rápida”, afirma o presidente do Instituto Aço Brasil (IABr), Marco Polo de Mello Lopes.

Segundo ele, só de junho de 2014 a junho de 2015, a indústria do aço demitiu cerca de 11,1 mil trabalhadores, além de suspender 1,4 mil contratos em sistema de lay-off e postergar US$ 2,1 bilhões em investimentos. E não para por aí. O IABr estima a perda de mais 4 mil postos de trabalho no setor até o fim deste ano. “ uma crise de proporções muito fortes”, pontua o presidente da entidade.

“Hoje, por conta de fatores conjunturais e estruturais, estamos vivendo uma crise sem precedentes em que precisamos de soluções emergenciais sob pena de termos conseqüências muito difíceis para o setor. Esses fatores conjunturais estão ligados ao crescimento pífio da economia em 2014, uma queda do PIB (Produto Interno Bruto) para esse ano e os setores de construção civil, automotivo e de máquinas e equipamentos vêm com reduções drásticas de atividade e só aí tem 80% do consumo do aço”, avalia.

Ainda na linha do conjuntural, o representante da siderurgia nacional lembra que o setor vem sendo “bombardeado” pelas importações da China. Só para se ter uma ideia, em 2000, a participação chinesa nas importações nacionais de aço era de 1,3%, o que significava em torno de 2 mil toneladas anuais. Em 2014, conforme Lopes, a China abocanhou 52% de fatia, o que correspondeu a 2,1 milhões de toneladas de aço.

Contudo, a situação pode até se agravar. “O consumo chinês de aço sempre girou em torno de 700 milhões de toneladas (por ano) e vem caindo, mas sabemos que o governo chinês não vai efetivar aquilo que vem prometendo ao mundo, que são os cortes de capacidade instalada. Então, quando o consumo cai e a capacidade se mantém, isso sinaliza que a China vai se tornar mais agressiva nas exportações. Já verificamos hoje que o país asiático exportou alguma coisa em torno de 90 milhões de toneladas em 2014 e já está em ritmo de 110 milhões de toneladas para este ano”, explica Lopes.

Protecionismo – Em função do apetite chinês pela venda de produtos siderúrgicos no mercado mundial, Lopes defende a adoção de medidas protecionistas no ambiente doméstico. “Nesse momento diria que, sem perspectiva de crescimento de mercado interno, a saída é o mercado internacional apesar de toda a dificuldade que ele tem pelos excedentes monumentais de mais de 700 milhões de toneladas. Diria que também precisamos de um olhar muito atento para blindar o mercado interno”, sugere.

Para o representante da indústria do aço do País, de forma geral, o empresariado fica “acanhado” na abordagem sobre defesa comercial porque isso se confunde com protecionismo. “Mas o mundo todo hoje está se defendendo e tentando preservar aquilo que é seu ativo principal, que é o seu mercado interno. Essas seriam as duas medidas que recomendamos: a exportação e uma defesa comercial eficiente”, ressalta.

O presidente do IABr lembrou que os Estados Unidos abriram uma petição de antidumping e direito compensatório contra alguns países, inclusive o Brasil. “No laminado a frio, os Estados Unidos colocam um direito contra o Brasil da ordem de 60% e contra a China esse direito é de 265%. Isso significa dizer, em uma visão mais simplista, que deveríamos ter aqui no Brasil uma proteção em torno de 200% para poder compensar, segundo a avaliação norte-americana, a diferença que existe em termos de prática de dumping entre a China e os demais países”, esclarece.

Fonte: Diário do Comércio
Seção: Siderurgia
Publicação: 28/08/2015

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