Setor siderúrgico se opõe ao corte na tarifa de importação e diz ter o vergalhão mais barato do mundo – 11/05/2022

11 de maio de 2022

As empresas do setor siderúrgico esperam que o corte na tarifa de importação do vergalhão de aço, pautada para a reunião da próxima quinta-feira do Comitê Executivo de Gestão (Gecex) da Câmara de Comércio Exterior (Camex), não seja aprovado.

“A expectativa é que o governo acolha nossos argumentos e reverta a orientação que ontem foi comunicada”, disse o presidente do Conselho Diretor do Aço Brasil, Marcos Faraco.

Fontes do governo informaram ontem sobre a intenção de reduzir as tarifas de importação de 11 produtos, entre eles o aço. É o que está na pauta da reunião do Gecex.

A informação genérica sobre redução da tarifa de importação do aço teve repercussão nas empresas, disse o presidente-executivo do Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes.

O que está em discussão no governo e pode ser levado à reunião do Gecex, informou Faraco, é a redução do imposto de importação apenas sobre vergalhão de aço. A tarifa seria cortada de 10,8% para 4% de forma temporária: até o fim deste ano. Não estão em análise cortes de tarifas para outros produtos siderúrgicos.

Alta do vergalhão

Lopes afirmou que o ministro da Economia, Paulo Guedes, relatou que vinha sendo pressionado pelo setor de construção civil, mais especificamente pelas empresas que atuam no programa Casa Verde e Amarela, sobre os preços do vergalhão de aço.

“Trouxeram informação que não procede, indicando que o setor [siderúrgico] teria aumentado o preço acima de 100% e a construção civil estaria atravessando grandes dificuldades. Isso não ocorre de fato; todo mundo sabe que a construção civil está falando em dobrar o PIB, e que bom que seja assim.”

A informação que o governo teria intenção de reduzir a tarifa de importação do aço de maneira geral impactou as empresas, comentou. No entanto, trata-se de uma discussão apenas sobre o vergalhão de aço.

Vergalhão mais barato do mundo

Na reunião com Guedes, os representantes do setor siderúrgico rebateram as reclamações do setor de construção civil que teriam levado o governo a pensar em reduzir a tarifa de importação do vergalhão de aço.

Diante da queixa que o setor de construção estaria enfrentando grandes dificuldades e desempregando, o setor siderúrgico informou a Guedes que emprega diretamente 110.000 pessoas e, indiretamente, 3 milhões, informou Faraco.

Além disso, as empresas estão investindo R$ 12 bilhões este ano, com compromissos de mais R$ 41 bilhões nos próximos anos.

Em abril, havia mais de 9 mil canteiros de obra formais ativos no país, acrescentou. Em janeiro de 2020, eram menos de 5 mil. “O crescimento mês a mês tem sido cada vez mais consistente”, disse. “O setor de construção civil não passa por pesadelo.”

Faraco informou ainda que não há problemas de abastecimento no Brasil desde junho de 2021, a ponto de as empresas brasileiras terem voltado a exportar no terceiro trimestre de 2021. Em 2020, houve desarranjo das cadeias, lembrou.

“O Brasil tem hoje o vergalhão em dólar mais barato do mundo”, afirmou. Na Europa, o produto apresentou alta de 129% nos últimos 12 meses; nos Estados Unidos, de 78% e, no Brasil, de 45%. O único mercado onde a alta foi menor do que a do Brasil é a Rússia, disse.

“O vergalhão brasileiro é competitivo e o mais barato do mundo”, frisou. “Não faz sentido a discussão que está sendo trazida para o imposto de importação, uma vez que é inócua.”

Segundo Faraco, a redução da tarifa de importação atenderia apenas “a interesses específicos de um setor importador que quer se beneficiar de desvio de comércio internacional para aumentar suas margens de negócios.”

Os empresários apresentaram a Guedes um estudo pelo qual o aço representa de 3% a 5% do custo da construção civil e o impacto do vergalhão foi de 0,03% nos últimos 12 meses. No período, o Índice Nacional da Construção Civil (INCC) foi de 11,52%.

Segundo Faraco, o ministro se mostrou surpreso e questionou sua equipe se tinha essas informações. Ao final, fez um pronunciamento reconhecendo a transparência do setor e pedindo à sua equipe que, com base nas informações, reavaliasse as discussões que estavam acontecendo e na tarde de hoje voltassem a deliberar sobre o tema.

Construção civil nega pressão

O presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), José Carlos Martins, afirmou nesta que jamais disse a Guedes que seu setor está desempregando. “O que eu disse é que a venda de hoje é o emprego de amanhã”, informou ao Valor.

Por isso, ele afirma que os dirigentes do Instituto Aço Brasil “faltaram com a verdade” quando, ao relatar reunião mantida hoje com Guedes, contaram que o ministro se sentia pressionado pelo setor de construção, que estaria demitindo.

“Nunca falamos que não estávamos contratando”, disse Martins. O que ele vem repetindo é que, com as vendas em queda, poderá haver problemas para as empresas no futuro.

As vendas de imóveis financiados pelo Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) começaram a cair no terceiro trimestre de 2021, disse o presidente da CBIC. Tanto que o conselho curador do Fundo alterou por duas vezes a curva de subsídios a imóveis, para tentar recuperar a demanda pelos imóveis. Já as vendas pelo Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), que foram recorde em 2021, agora desaceleraram por causa da alta dos juros.

Segundo Martins, os preços do vergalhão de aço subiram 34% de julho de 2020 a julho de 2021. No ano passado, o produto importado chegava ao país com preços de 15% a 20% mais baratos, disse. “Aí, tiveram de baixar o preço”, disse, referindo-se às fabricantes nacionais. Mas, com a alta do dólar, os preços no mercado doméstico voltaram a subir.

Fonte: Valor
Seção: Siderurgia & Mineração
Publicação: 11/05/2022

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