Siderurgia aguarda recuperação

5 de janeiro de 2016

Leonardo Francia

Com a demanda doméstica em queda e a baixa competitividade no mercado externo mesmo com câmbio desvalorizado, a siderurgia nacional não deve ter um 2016 promissor na avaliação de especialistas consultados pela reportagem. Ao contrário, para os entrevistados, o quadro de deterioração do setor deve permanecer este ano.
 
O analista de Mineração e Siderurgia da Tendências Consultoria, Felipe Beraldi, explicou que a siderurgia nacional já vem em crise há alguns anos devido, entre outros fatores, ao excesso de oferta no mercado mundial. Agora, com a crise econômica nacional, a situação piorou. “2016 deve ser mais um ano difícil, que vai representar a continuidade da deterioração do setor. Não se espera a recuperação dos setores mais demandantes, que são o automotivo, construção civil e bens de capital”, afirmou.
 
As projeções do Instituto Aço Brasil (IABr) para os resultados de 2015 e previsões para este ano confirma a análise do especialista. O instituto projeta uma queda de 16,5% no consumo aparente de aço, que compreende as vendas internas das siderúrgicas mais as importações, em 2015 contra 2014. Da mesma forma, para 2016, o recuo estimado é de 5,1%.
 
Por outro lado, Beraldi lembrou que o aço brasileiro ganhou competitividade no exterior com o câmbio desvalorizado. “Mas isso não é suficiente para reverter a situação”, ponderou. É que o preço do aço no mercado global continua caindo devido ao excesso de oferta, algo próximo a 700 milhões de toneladas anuais. “O preço baixo do aço no mercado global anula qualquer medida que já tenha sido tomada para tentar conter a importação do produto importado”, acrescentou.
 
Incertezas – As incertezas sobre o ambiente político e econômico nacional, para o presidente da Câmara da Indústria da Siderurgia e Metalurgia da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Bruno Melo Lima, não trazem nenhuma perspectiva de melhora no quadro de recuo do consumo dos principais clientes da indústria do aço, como os fabricantes de eletrodomésticos da linha branca e de bens de capital, a construção civil e a cadeia automotiva.
 
“Do ponto de vista da siderurgia, a parada da economia nacional, em especial da construção civil, do setor automotivo e dos fabricantes de bens de capital, nos leva a uma inquietude grande com relação principalmente à primeira metade de 2016”, declarou Lima. Além disso, ele lamentou a entrada de aço importado, majoritariamente da China, no mercado interno.
 
“A entrada de aço importado atrapalha demais, sobretudo do aço da China, que inunda o mercado mundial com seu produto. Por mais que a valorização do dólar tenha ajudado, porque as importações ficaram mais caras, alguma coisa bem mais forte do aumentar a alíquota da importação tem que ser feita”, avaliou.
 
Um exemplo dos efeitos da crise vivida pelo parque siderúrgico no Brasil é a situação da Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais (Usiminas). Após apurar um prejuízo de R$ 1,04 bilhão no terceiro trimestre deste ano, a companhia anunciou a suspensão temporária das atividades da Usina de Cubatão, em São Paulo, sendo que, em maio, um dos altos-fornos da unidade da companhia em Minas já havia sido abafado. O número de demissões pode chegar a cerca de 2 mil empregados paulistanos.
 
Nas contas do IABr, as siderúrgicas brasileiras já demitiram 21,7 mil trabalhadores desde janeiro até o final de novembro. Além disso, a entidade estima que o cenário negativo resultou no adiamento de US$ 2,2 bilhões em investimentos do setor. Com isso, 7,6 mil postos de trabalho deixaram de ser gerados.
 
Em Minas, os últimos dados da Pesquisa Indicadores Industriais (Index), da Fiemg, mostraram que a indústria metalúrgica (siderurgia e ferro-gusa), teve uma retração de 9,3% na receita do acumulado até outubro em relação à do mesmo intervalo de 2014. No nível de emprego, a queda foi de 8,8%, em igual confronto.
 

Fonte: Diário do Comércio
Seção: Siderurgia
Publicação: 05/01/2016

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